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Silêncios

Um rosto, todos os olhares. Um rosto, todos os recantos do mundo. Um rosto, todos os sulcos da existência. Um rosto, todas as finitas imagens. Um rosto, toda a voragem do universo. Um rosto, um sorriso. Um rosto, uma lágrima. Um rosto, um esgar triste. Um rosto, um esboço de felicidade. Um rosto, o espelho da terra. Um rosto, o espelho do tempo. Um rosto, o espelho. Um rosto.

Um rosto são memórias. Histórias esculpidas. Um tosto são sagas contidas numa expressão. Nas rugas feitas veredas de um tempo. Um rosto é a doce ternura de vivências passadas. Duras. Sofridas. Doridas. Amadas. Amantes. Belas. Feias. Únicas. Irrepetíveis. Um rosto é um discurso. Um rosto é uma pessoa. Um rosto é todas as pessoas. As pessoas são o rosto de um mundo. De uma terra. De uma existência.

Do Carmo Vieira é uma mulher de pequenos olhos perdidos num rosto sereno. Um dia, o tempo dirá se tarde, se cedo, chegou à pintura. Importa-lhe a condição humana. Fascina-a a ideia de construir a narrativa de cada rosto. Consome-a o desembrulhar das múltiplas ligações inerentes à trilogia constituída pelas palavras “velhice”, “dignidade”, “beleza”. Une-as um indelével cordão em cada instante questionado pela violência do hoje quotidiano.

Transmontana, cruzou-se um dia com o trabalho do fotógrafo amador Paulo Patoleia, de Torre de Moncorvo, e viu despertar-se-lhe no mais íntimo de si as recordações de infância, preenchidas pela memória dos rostos daqueles homens e daquelas mulheres feitas personagens de uma paisagem agreste, tantas vezes dura, quase sempre distante. Ao ver as fotografias de Paulo, Do Carmo Vieira não ensaiou uma viagem no tempo. Recuperou um tempo passado plasmado naqueles rostos mergulhados em histórias.
Construiu retratos. Paisagens humanas. Vai expô-los a partir do próximo sábado no Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta. Se é capaz de desfiar as vidas contidas em cada um daqueles rostos perante os quais é impossível adotar a indiferença como atitude, em boa verdade, não os conhece.

São homens e mulheres do mesmo povo que a viu crescer. Alguns e algumas terão já morrido. Ficou-lhes a memória do olhar. A memória daquelas expressões tão sábias, tão desdunadas de artificialismo. Tão absolutas na procura da simplicidade.

 

Fonte: Expresso

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