Câmara Municipal de Gondomar

Histórias do tempo em que a Casa Branca de Gramido era habitação e escola
publicado a 29 de junho de 2019

Nasceu no edifício que hoje reconhecemos como a Casa Branca de Gramido. Nasceu, casou e foi mãe. Foram mais de 30 anos de história até que um dia, no final dos anos 1980, teve de abandonar a casa. E foi viver para o outro lado do Douro, mesmo em frente, “na terra da broa”, em Avintes. Aos 71 anos, voltou hoje, pela primeira vez, a Gramido. “Isto era o meu mundo”, diz emocionada Maria Manuela Ramalho Neves Monteiro.

Maria Manuela pertence a uma de 13 famílias, mais de 40 pessoas, que viviam nas casas que conhecemos como a Casa Branca de Gramido. Os que ainda não “partiram para a terra da verdade”, como explicou, voltaram ao espaço que tiveram como residência e escola. Foi, por isso, uma manhã de comoções. E logo no dia em se assinalam os 172 anos da assinatura da Convenção de Gramido, um importante tratado de paz que pôs fim a uma guerra civil que perdurava há dois anos em Portugal, dia também marcado pelo quinto aniversário da Loja Interativa de Turismo de Gondomar.

A casa pertencia a Francisco Martins de Oliveira que, juntamente com os irmãos, comerciava trigo e ali mesmo, na estrutura edificada no início do século XIX, explorava um armazém. Eram os “casas brancas”, conhecidos pela sua força, capazes de carregar cinco rasas de trigo ou erguer meia pipa e que bebiam pelo borneiro. Em determinada altura, a Casa Branca passou a ter inquilinos ligados à atividade no rio Douro (peca, transporte de pessoas e mercadorias). Na altura da construção da estrada marginal (a Estrada Nacional 108) a casa teve maior afluência de pessoas, até por razões de comodidade ligadas à obra em curso.

“Vieram para aqui construir esta estrada…”

Os pais de Maria Manuela Ramalho Neves Monteiro foram uns desses inquilinos. “Os meus falecidos pais vieram para aqui construir esta estrada”, explica, na década de 1940. “As pessoas começaram a vir e ficavam”. E mesmo os imponderáveis da vida não as afastava daquele local. “A minha mãe faleceu e o meu irmão casou. Então, eu e o meu pai fomos viver com o meu irmão para Valbom, perto da Igreja. Depois o meu irmão foi para o Brasil e nós regressámos cá para baixo. Viemos ali para a casinha da ponta. Ali ficámos”, lembra Maria Manuela. “Aqui nasci, fui criada, casei, nasceram os meus filhos e foram batizados, até casarem e irem à vida deles”, lembra, emocionada, Maria Manuela Ramalho Neves Monteiro.

Como diz a tradição, a “ilha” funcionava em modo solidário. Aos fins-de-semana, nesta altura do ano, na zona posterior das casas, nos quintais cultivados, cada um trazia qualquer coisa e todos juntos faziam uma festa. E quando o tempo dava para o torto, nas cheias, por exemplo, abriam portas aos que fugiam no Douro com os poucos haveres que conseguiam salvar.

Balas de canhão na escola

Mas o espaço não era só e apenas uma casa, ou várias casas. Tinha escola. E a escola era frequentada pelos meninos das redondezas, de Alto Gramido e até de Valbom. No piso onde, atualmente, se realizam muitas das exposições temporárias funcionava uma escola que muitos frequentaram. E, tudo o indica, o mestre também era inquilino. Ali faziam as três primeiras classes, a quarta era já em Valbom e a admissão aos liceus em São Cosme. “Lembro-me como se fosse hoje”, conta outro antigo inquilino: “Naquela sala onde estivemos havia uma bandeira de Portugal, outra com a cruz de Cristo e bolas, balas de canhão”.

“A casa era muito pequenina e arranjadinha, mas divertíamo-nos imenso”, lembra, divertida, quem ali nasceu e cresceu, recordando as travessuras e as aventuras próprias da adolescência. “Escondíamos os cigarros debaixo das escadas…”

Na década de 1970 ocorreu um incêndio na Casa Branca, que ficou parcialmente destruída. Parte dos moradores foram realojados, outra parte ficou e ali se manteve até que, em 1989, a Câmara Municipal de Gondomar adquiriu o edifício, já muito degradado e alterado. Nessa altura, os últimos inquilinos tiveram de partir. Para uma nova vida. E a Casa Branca de Gramido ganhou um novo desígnio. Uma nova vida.