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Ourives, poeta, desportista e benemérito, um gondomarense no Brasil
No bairro de Cosmos, no Rio de Janeiro, existe uma escola chamada Comendador Serafim Sofia, uma praça com o nome Sofia Moreira, um clube de futebol denominado Rosita Sofia, mais uma igreja de invocação a Santa Sofia e ainda um monumento em memória deste Serafim, português, nascido em Covelo, Gondomar. Um largo no lugar de Gens, na Foz do Sousa, homenageia este gondomarense, protagonista de uma história cheia de sucesso e de ternura. Legou ao Brasil memórias de bem-fazer e ao mundo um filho que é considerado um dos maiores compositores da MPB (Música Popular do Brasil).
Era uma vez um menino, Serafim, que veio ao mundo na freguesia de Covelo, em Gondomar, no dia 9 de fevereiro de 1897. A mãe chamava-se Sophia Moreira e, segundo o assento de nascimento do filho, tinha sido uma criança exposta do hospício de Penafiel, o que significa que tinha sido abandonada à nascença. Não se sabe quando, nem como veio para Gondomar, sabe-se, contudo, que o pequeno Serafim nasceu, também ele, de pai incógnito.
A vida não terá sido fácil para Sophia e para o seu filho, mas a verdade é que ele cresceu, tornou-se ourives e em 1824, já casado e com, pelo menos, um filho, parte para o Brasil em busca de uma vida melhor. Inicia um novo percurso, num novo país, deixando para trás a sua pequena aldeia. Anos mais tarde, deixaria registado num livro de poesia as memórias da sua infância, em versos singelos mas sentidos: “Bem pertinho da igrejinha,/na estrada que vai p'ra serra,/havia na minha terra/uma choupana velhinha. /Sei que mais pobre não tinha,/mas, assim mesmo, eu gostava,/pois era ali que eu morava,/bem pertinho da igrejinha. /Casinha de pedra nua,/paredes a revestir,/todos podiam ouvir/nossa conversa da rua;/e via-se a própria lua/pelas frestas do telhado./Como é grande o teu passado,/casinha de pedra nua!”
Serafim Moreira nunca esqueceu a aldeia mas também nunca esqueceu a mãe por quem, adivinha-se, tinha uma grande ternura e um imenso orgulho. Em 1943 a mulher e os filhos viajavam no navio Afonso Pena que foi bombardeado por um submarino alemão, Serafim, ao saber a notícia, invocou a protecção de Santa Sofia pedindo o salvamento da família e foi ouvido. Sofia passará a ser, a partir dali, definitivamente, o nome de família que substitui o apelido do pai que nunca teve. Alguns anos depois, conquistado o sucesso com que todos os emigrantes sonham, fica conhecido como Comendador Serafim Sofia, ao ser agraciado pelo Papa, por ter mandado construir uma igreja de invocação à santa com o mesmo nome da mãe.
Exercendo a profissão que tinha aprendido na sua terra natal, à qual associa uma sensibilidade artística que todos os testemunhos lhe reconhecem, Serafim rapidamente conquista um lugar na terra de oportunidades que era o Brasil. Para trás ficou a sua experiência, como operário, nas minas do Pejão e a cabana velhinha. Construiu a sua vida em Campo Grande, nos subúrbios do Rio de Janeiro e dedica-se, de corpo e alma a apoiar o crescimento da comunidade de acolhimento. Montou uma empresa de comércio de peças de ouro, chama a família para o Brasil e cria laços fortes com as gentes desta terra, multicultural e multirracial.
Por volta de 1829 nascia, em Campo Grande, o Bairro Cosmos, que toma este nome por ser construído pela Companhia Kosmos Engenharia e Imobiliária na qual começava a sua carreira o então jovem Oscar Niemeyer (o arquitecto que projetou Brasília). É neste local que se fixa Serafim Sofia, com o seu negócio de joalharia, ajudando ao desenvolvimento da nova zona residencial. É ele que apoia a construção da primeira escola pública bem como do posto de saúde e foi também aqui que mandou construir a igreja de invocação a Santa Sofia. Notícias de jornal afirmam que Serafim Sofia chegou a deter 2/3 das terras de Cosmos, boa parte das quais ofereceu a famílias pobres para que pudessem construir as suas casas.
Em diversos jornais brasileiros, nas décadas de 30, 40, 50 e 60 do século XX, são constantes as referências a este português, gondomarense e para nosso orgulho, são sempre notícias que realçam as qualidades deste homem, como benemérito, sobretudo, mas também como artista e poeta, como amante das actividades desportivas, como divulgador da música e das tradições portuguesas. Não surpreende, por isso, que ainda hoje ele seja lembrado na terra onde viveu grande parte da sua vida, tendo sido dado, recentemente, o nome dele a um Espaço de Desenvolvimento Infantil, em Campo Grande. Muitos brasileiros ainda lembrarão o facto de ter sido o comendador a instituir, em 1945, a campanha “copo de leite e pão com manteiga” que abrangia todas as crianças de Cosmos, e eram muitas porque, no ano seguinte, 1946, foi inaugurada a escola, denominada Rosita Sofia (em homenagem à filha), que ele mandou construir e equipar, com capacidade para 300 meninos. O primeiro posto de saúde desta zona também foi instituído pelo benemérito português que, para além do seu bom coração – alguns jornalistas afirmavam que fazia jus ao seu nome, Serafim o anjo – era também um poeta de qualidade, tendo publicado várias obras, entre as quais O Martírio de Santa Sofia (poema histórico sobre a vida da Santa) e Badaladas do Tempo – Poesias.
Para além da filha Rosita Sofia, que deu nome também a um clube de futebol criado e patrocinado pelo comendador, outro descendente deste nosso patrício, tem o seu nome registado no imaginário colectivo dos brasileiros, foi ele Adelino Moreira, o responsável pela belíssima canção “Negue”, uma composição que tem sido cantada pelas maiores vozes do Brasil. Adelino começou a sua carreira artística no programa de rádio que o pai produzia, na Rádio Clube do Brasil, “Seleções Portuguesas”. Tinha nascido em Covelo, em 1918, e foi com a mãe, menino ainda, para o Brasil. Cantou fado e canções portuguesas, mas depois de uma viagem a Portugal, onde participa numa revista no Sá da Bandeira, regressa ao Rio de Janeiro e decide dedicar-se exclusivamente à composição. E foi uma decisão acertada, porque Adelino Moreira compôs centenas de canções e foi uma das estrelas mais brilhantes dos tempos áureos da canção da rádio, deixando inscrito o seu nome na Música Popular Brasileira. Tal como o pai, Adelino aprendeu a profissão de ourives e seguindo a tradição empreendedora de muitos emigrantes portugueses, teve vários negócios na região de Campo Grande, incluindo um restaurante/Bar, o Cinderela, frequentado por grandes artistas da época.
Adelino Moreira foi o principal compositor de Nélson Gonçalves e escreveu para vários artistas de renome, como Ângela Maria, a cantora da rádio que fascinou várias gerações de brasileiros e de portugueses. A veia artística herdou-a, certamente, do pai, que nos seus primeiros anos no Brasil atuou em diversos locais e surge nos jornais como “Serafim Moreira o famoso cantador”.
Cantador, poeta, benemérito, industrial, desportista e elegante representante da sociedade do seu tempo, o gondomarense Serafim merece, sem dúvida, o carinho dos seus conterrâneos. Até porque, diz-nos o poema que dedicou à sua aldeia natal, ele nunca esqueceu o lugar onde nasceu. Numa das suas vindas a Portugal, em meados do século XX, deixou memórias de bem-fazer, na sua terra natal, que ele descreve assim: “… Cantinho de gente pobre,/eu não consigo olvidar-te!/Meu desejo era cantar-te/como se em palácio nobre,/onde há riqueza que sobre,/tu te houvesses transformado./Sou teu velho enamorado,/cantinho de gente pobre!”.
Margarida Almeida
Comerciante, Republicano e Benemérito
O coração cívico de Gondomar presta homenagem, dando nome à praça onde ficam situados os paços do concelho, a Manuel Guedes, um gondomarense ilustre, convicto republicano, comerciante e empreendedor. Até 1914, o local era conhecido como Largo da Quintã e foi na sessão de 2 de Junho desse ano que a “Exma. Câmara” toma conhecimento da oferta de duas placas com a nova designação. Fez-se a devida publicidade e, simultaneamente, os representantes locais da jovem República, prestavam tributo a um homem que se distinguiu, enquanto viveu, pelo grande amor à sua terra e às ideias republicanas, tendo morrido antes da implantação do novo regime.
Filho de Joaquim Ferreira Ramos e de Ana Pereira, que viveram em S. Cosme, Manuel Guedes nasceu em Valbom, em 1829, freguesia onde os pais, de S. Cosme, estiveram durante algum tempo, e viveu, durante muito anos, no largo da Quintã, onde veio a possuir uma grande casa comercial que, à boa maneira daqueles tempos, vendia de tudo. Tanto assim é que, quer Manuel Guedes quer o seu negócio, foram alvo da veia satírica de Manuel Damião de Castro, um poeta local da época, que assim exaltou o arrojado empreendimento:
“Quintã hoje é uma vila,
Em Portugal sem segunda,
Ali o negócio brilha;
Não foi nenhum farroupilha
Que a pôs em tal altura;
Fino sem ser bacharel
Foi o nosso Manuel
Que a pôs fora da lura.
Ali carapuças há;
Vende pão, café e chá;
Vende arroz e olha cá:
Pano cru vende e cotim;
Caretas para o Entrudo;
Loja que venda disto tudo
Não há por aqui assim.”
O edifício ainda existe, em visível mau estado, apesar da fidalga placa que o nomeia como Vila Leopoldina, nome de uma posterior proprietária. Foi aqui que decorreram muitas sessões camarárias, durante o tempo de construção dos actuais paços do concelho, entre 1899 e 1900, por empréstimo de uma vasta sala, e é aqui a sede do centenário Clube dos Caçadores de Gondomar.
Voltando ao nosso Manuel Guedes, sabe-se que contribuiu para a promover a ligação entre S. Cosme e o Porto, provavelmente através de diligência. Nos últimos anos de vida fixou residência no Porto, onde veio a morrer. Mas, nem a morte o impediu de continuar a engrandecer a sua terra, como se percebe pelas actas da sessão da Câmara de 11 de Junho de 1914, onde Serafim Rosas, em nome de António Ferreira Ramos, filho de Manuel Guedes, informava que este gondomarense, em memória de seu pai, desejava que fossem instituídos dois prémios pecuniários, para serem distribuídos ao menino e à menina que maior classificação obtivessem no seu exame de instrução primária. Para o efeito, oferecia duas inscrições de 500$00 cada, a favor da Câmara que tomaria o compromisso de satisfazer as condições do legado com o rendimento anual das inscrições.
Apesar dos poucos dados conhecidos sobre Manuel Guedes e a sua família, sabe-se que teve, pelo menos, nove irmãos, entre os quais Carolina Ferreira Ramos, casada com Joaquim Mendes Barboza, tabelião em Gondomar. Desta Carolina descendem José Barbosa Ramos, um outro gondomarense ilustre que dá, também, nome a uma rua da nossa terra e Maria Manuel Aguiar, jurista, várias vezes deputada na Assembleia da República pelo Partido Social Democrático, tendo integrado vários governos.
Maria Manuela Aguiar recorda, num blogue pessoal, a casa onde nasceu, em Gondomar, pertencente à sua avó Maria Barboza Ramos, sobrinha neta do nosso Manuel Guedes, a entretanto demolida Vila Maria, onde passou boa parte da sua infância.
Manuel Guedes foi pai do já mencionado António Ferreira Ramos, nascido em 1850, na freguesia de S. Cosme. Emigrou para o Brasil, tendo-se estabelecido no Rio de Janeiro e em 1888 casou com Berta Ortigão, em Lisboa, a filha mais nova do autor de “As Farpas”. Ficou a viver na capital e fez parte da sociedade que criou o Teatro Dona Amélia, actual São Luís. Como curiosidade, foi leiloada, recentemente, uma carta de Ramalho Ortigão, dirigida a este seu genro, onde refere: “Pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros me foi ontem prometida para V. uma Commenda de Isabel la Catolica. Preferi uma Commenda porque os habitos não teem aspecto nenhum. (…) A de Isabel, em ouro é muito bonita. V. dirá se quer que eu lhe compre aqui uma”. De António Ferreira Ramos e Berta Ortigão descende o conhecido músico Rão Kyao, já que a sua avó foi uma das filhas deste casal, Maria Isabel Ortigão Ramos.
Da figura que dá nome à praça mais emblemática da cidade de Gondomar, estava por descobrir a origem do apelido Guedes, uma vez que nem pais nem avôs o usam. A resposta foi-nos dada pelos assentos de baptismo, onde descobrimos uma ligação de Joaquim Ferreira Ramos, o pai de Manuel Guedes, com a família Meireles Guedes, que na primeira metade do século XIX foi proprietária da Quinta da Bouça Cova (dos Capuchinhos). Uma vez que vários elementos desta família foram padrinhos de baptismo de, pelo menos, três dos filhos de Joaquim, entre os quais o Manuel, é provável que este tenha assumido o apelido dos padrinhos, como era comum na altura.
Ainda, relativamente, ao percurso de vida de Manuel Guedes, existem várias referências à sua ligação ao movimento republicano. Fala-nos disso Camilo de Oliveira, nos seus Apontamentos Monográficos e Maria Manuela Aguiar confirma as memórias dos “tios republicanos”. Mas é na sessão camarária de 4 de Abril de 1914 que o envolvimento de Manuel Guedes ao ideário republicano fica registado. Serafim Rosas (outro gondomarense que deu o nome a uma artéria) agradece a homenagem póstuma que “esta Câmara prestou à memória do grande gondomarense e republicano, Manuel Guedes, dando ao mais lindo local do concelho o nome Praça Manuel Guedes”. Esta decisão respondia à proposta feita pelo mesmíssimo Serafim Rosas, para se efectuar a referida homenagem, em 22 de janeiro de 1914, onde afirmava que “Manuel Guedes Ferreira Ramos, além de ter sido um dos mais intensos pugnadores dos interesses deste concelho, foi também um acérrimo defensor da democracia”. A estas eloquentes palavras, o cidadão presidente disse “que achava justa a homenagem que o munícipe Serafim Rosas advoga, porque o cidadão Manuel Guedes Ferreira Ramos mostrou-se sempre um defensor extremo dos interesses deste concelho e por sua iniciativa alguns melhoramentos se lhe deve”. Os elogios multiplicaram-se e o cidadão (a jovem república portuguesa estabelecia o tratamento igualitário de “cidadão” na administração pública) Gonçalves Correia afirmou que “ele, orador, não pode deixar de levantar a sua voz, para prestar a homenagem devida à memória de Manuel Guedes que afora a sua fé republicana, muito pugnou pelo levantamento e progresso deste concelho, podendo dizer-se que da sua iniciativa saiu o estabelecimento de carreiras entre a sede deste concelho e a cidade do Porto”. Findos os elogios, a Câmara, presidida por Ventura Martins de Castro, deliberou por unanimidade mudar o nome do largo da Quintã para Praça Manuel Guedes.
É neste local que fica, para além dos edifícios já referidos, Câmara e Vila Leopoldina, um recuperado exemplar de uma casa de quinta característica da região, que, pela antiguidade merece a atenção das gentes de Gondomar. O mais antigo documento conhecido sobre a propriedade remonta a 1839, ano da venda da casa aos actuais proprietários. Num pedido de um registo de propriedade, em 1867, descreve-se assim o imóvel: “ Prédio que se compõe de casas sobradas, lojas, quinteiro, alpendre, eira e casa dela, casa para receber géneros com 3 andares, quintal, pomar, ramadas, engenho para extrair água, tanque, mina de água sita no lugar de Quintã, freguesia de S.Cosme, confronta do norte com a estrada pública(…). Valor de 3.000$000 é possuída pelo declarante”.
A descrição permite-nos evocar o lugar em meados do século XIX, onde já passava uma estrada pública e se iniciava a arquitetura do coração de Gondomar, ali no sopé do Monte Crasto, antiga grande quinta (quintã), palco do empreendedorismo de Manuel Guedes e de outros gondomarenses ilustres, o local por onde passavam todas as novidades.
O largo da Quintã, no século XIX, ainda não existia o actual edifício camarário mas já se destacava a vila Leopoldina, nesta altura, casa comercial de Manuel Guedes.
Margarida Almeida

Manuel Guedes
Um abade artista amigo do ensino e da poesia
Em 24 de Agosto de 1869 Júlio Dinis escrevia ao seu amigo Custódio de Passos uma carta a partir da residência paroquial de S. Salvador de Fânzeres. Entre pedidos de remédios para maleitas próprias e alheias, confidencia-lhe que “o nosso bom abade continua aflito com o calor, desconfiado com a política moderna, e preocupado com a engorda dos seus porcos. Pede-me ele que tu lhe mandes comprar um rol para a roupa da lavadeira, d'esses que têm os objectos pintados, para suprir a falta de ciência das letras de Clemência; quer também uma mão de papel fino para cartas e um maço de envelopes”.
O bom abade era Pinto Outeiro, a Clemência era a criada, os remédios que Júlio Dinis pedia ao Passos eram, respectivamente óleo de croton para o incómodo peitoral e “doze papéis de sulfato” para as dores de “queixos” do Luso.
Esta não é a única referência direta de Júlio Dinis ao amigo Pinto Outeiro, o abade de S. Salvador de Fânzeres, em cuja casa o escritor vinha a ares, fugindo da poluição da cidade grande. Outros tempos, em que Gondomar era uma zona bucólica, com rios límpidos e lameiros verdejantes.
Mas afinal quem era este bom abade, que desconfiava da política moderna? António Pinto Outeiro nasceu na freguesia de S. Nicolau, em 1827, no Porto, na mesma freguesia onde nasceu Júlio Dinis, mais de uma década depois. Foi abade de S. Salvador de Fânzeres durante largos anos, entre 1863 e o ano da sua morte, 1876. Apesar de ter morrido no Porto, subitamente, como refere o assento de óbito, está enterrado no cemitério da freguesia, por vontade que deixou inscrita no seu testamento.
Segundo os documentos, era filho de Francisco António Outeiro, negociante e proprietário e de Ana Angélica de Jesus Outeiro, proprietária, natural de Ancede. Teve dois irmãos, Francisco e Arnaldo, que terão morrido jovens, uma vez que no seu testamento, o abade deixa uma quantia para mandar rezar missas por alma dos irmãos. Há um registo, na Academia de Belas Artes do Porto, da inscrição de António Pinto Outeiro e do seu irmão Francisco nas aulas de gravura e desenho. Curiosamente, no mesmo ano lectivo, 1838/1839, matricula-se também Guilherme Gomes Coelho, padrinho de Júlio Dinis. Terá sido na sequência da relação de amizade e camaradagem entre eles que, anos mais tarde, o abade estreitaria relações com o escritor.
Paralelamente, o jovem estudante de belas artes que seguiu, depois, a carreira eclesiástica, tinha uma forte relação de amizade com Augusto Luso, nascido no mesmo ano que ele, professor de geografia no Liceu do Porto, escritor, poeta e coleccionador de caracóis nas horas vagas, também grande amigo de Júlio Dinis que, percebe-se pela carta, naquele verão de 1869, estava com ele na casa do padre, a sofrer de dores de queixos. Por isso não fizeram a programada pescaria, “e limitou-se o divertimento do dia a simples passeio campestre”, lamenta o autor das “Pupilas do Senhor Reitor”, na carta já mencionada. O Passos a quem Júlio Dinis escreve é Custódio irmão de Soares de Passos, o poeta ultra-romântico autor do famoso poema “Noivado do Sepulcro”, também ele amigo de Júlio Dinis, já que colaboraram os dois na famosa revista “Grinalda”, onde só entravam poetas.
Destas amizades podemos perceber que o Abade de Fânzeres era amigo das letras e da poesia, mas era também homem fértil em consolações, garante Júlio Dinis numa outra missiva, filosofia que, afirma ele com ironia, era “a causa principal da gordura do nosso amigo abade”. Na vasta correspondência entre Custódio Passos e Júlio Dinis são várias as referências ao nosso prior, como por exemplo esta: “Não posso deixar de falar do padre Outeiro. Aquele seu sono é admirável! Que bom frade ali se perdeu! O ministro que o não despachar pratica uma asneira redonda. Daquele estofo faz-se tudo quanto se quiser, até um pastor de povos, pois ainda que o seu sono habitual não pareça grande penhor de salvação de ovelhas, tem tanto de contagioso que é de esperar consiga adormecer os próprios lobos”. Apesar do tom brincalhão, o escritor deixa a entender, em várias outras citações, o respeito que tinha pelo bom abade e a admiração pela sua fé profunda que o levava a tentar converter os amigos mais incrédulos.
Sobre a sua relação com os paroquianos ficou a memória, diluída no tempo, da sua bondade e da forte ligação com os paroquianos. Deixou registos exemplares, nomeadamente os assentos de baptismo, de casamento e de óbito, muito completos no que respeita ao conjunto de dados inscritos, ao contrário do que acontecia, na altura, na maior parte das paróquias. Sobre a freguesia de Fânzeres, no tempo em que o abade Pinto Outeiro lá esteve, ficamos a saber que a maior parte das mulheres era tecedeira de profissão, seguem-se as lavradoras, jornaleiras, criadas de servir e, muito poucas, “empregadas no governo de sua casa”. Porque este senhor abade, apesar da imagem de conservador que Júlio Dinis traça dele, faz questão de colocar sempre a profissão das mães que registavam os filhos. Menciona ainda, em todos os assentos de baptismo, a profissão dos padrinhos e se sabem ou não escrever, a sua residência e se os conhece por saber ou ouvir dizer.
Com os dados recolhidos nestes documentos, ficamos com uma ideia das profissões masculinas mais comuns, nomeadamente as de jornaleiro, lavrador-caseiro, criado de servir, poucos tecelões, ainda menos negociantes e ourives, alguns galinheiros e porqueiros. Tínhamos, pois, uma freguesia eminentemente rural, com muitas oficinas de tecelagem, pelo menos a ter em conta a enorme quantidade tecedeiras que aparecem nos registos. Percebemos ainda que as madrinhas raramente sabiam assinar, alguns padrinhos sabem escrever e deixam a sua assinatura ao lado da do padre, mas o que é comovente, nestes registos quotidianos, é a minúcia do abade (ao ponto de registar as horas e minutos em que nasceu a criança batizada) e a sua preocupação em dar a mesma visibilidade a mulheres e homens.
Outro documento impressionante é o testamento de Pinto Outeiro, cheio de pormenores que nos permitem cruzar informações e retirar algumas ilações. Sabemos por exemplo que gostava muito do nome de Margarida, duas das afilhadas a quem contempla têm este nome, bem como a filha da criada Clemência. Talvez pelo facto de lidar com homens de letras que tinham a noção da importância dos registos escritos na construção da memória, o abade deixou-nos um testamento exemplar, com legados que merecem ser evocados. Este, por exemplo: “Deixo 500 mil reis para ajuda de fazer uma casa para a escola de instrução primária desta freguesia, sendo entregues pelos meus testamenteiros à Junta de Paróquia, logo que a mesma principie”. Com esta quantia e a doação do terreno, por um outro benemérito, a Junta construiu a escola sem nenhum tipo de ajuda do estado. O edifício ainda está de pé e abriga, actualmente, a Guarda Nacional Republicana.
Para além do legado, “à minha criada Clemência da Costa e sua filha Margarida”, de casas na actual Praça da República, no Porto, “bem como todas as roupas brancas e louças que tenho na residência”, Pinto Outeiro deixou ao amigo Augusto Luso outras casas no mesmo local e “as minhas estantes de conchas ao meu amigo doutor Delfim Martins Ferreira (o Dr. Cancelas, um ilustre gondomarense que mereceu também dar nome a uma rua), da freguesia de Rio Tinto, e os meus livros serão repartidos pelos amigos padre Belmiro Joaquim Pereira da Silva e Padre Agostinho de Sousa Neves, ambos de Rio Tinto, o meu relógio com redoma de vidro que tenho na sala de entrada ao meu amigo padre Bernardo Moreira d’Almeida, professor de instrução primária”.
Era assim, tão pormenorizado como se percebe pelas citações, este testamento, feito a 18 de dezembro de 1875, dois meses antes da morte do abade. Foi enterrado no seu jazigo, no cemitério de Fânzeres, onde já estava a sua mãe, que morreu em 1872, com 83 anos, na residência paroquial, tendo sido o próprio filho a fazer o funeral. Percebemos que Pinto Outeiro tinha assumido Fânzeres como a sua terra adoptiva, uma ligação afectiva que os fanzereses lhe retribuíram, dando o seu nome a uma das principais ruas da freguesia.
Terminamos com um poema que Augusto Luso, o geógrafo que punha todos os seus amigos a caçar caracóis para a sua colecção, lhe dedicou na obra “Últimos Versos”.
“Ao abade António Pinto Outeiro
Cuidadoso Pastor, que à luz brilhante
Da pura caridade,
O rebanho guiaste à Fé constante,
Que leva á Eternidade;
Da pátria dos espíritos olhando
Na terra a humanidade,
Se os amigos ai te estão lembrando,
Aceita a minha dor, minha saudade”.
Margarida Almeida
Entre Portugal e o Oriente – o Bispo que gostava de livros
Nasceu em Gondomar e correu o mundo enquanto religioso, atingiu o topo da carreira eclesiástica e foi bispo eleito de Pequim e do Porto. Na sua terra não faltam as referências a este homem, à sua proximidade com a população, ao seu amor pelos livros e à casa dos França que, em S. Cosme, é conhecida como a casa onde nasceu o bispo. D. João de França Castro e Moura é, sem sombra de dúvida, um dos mais ilustres gondomarenses e dá, com toda a justiça, nome a ruas e a uma praceta, no concelho.
Nasceu no lugar da Azenha, em S. Cosme, em 19 de março de 1804, filho de António João e Rosa de França, proprietários agrícolas abastados, como se pode confirmar pela traça da casa que possuíam, um amplo edifício rural mas com pormenores que o enobrecem.
Como era vulgar acontecer nas famílias abastadas dos proprietários rurais da época, um ou mais filhos seria destinado à vida eclesiástica. Foi o que aconteceu a João de França que, com apenas 11 anos foi entregue aos cuidados do tio materno, dr. José de França Castro Moura, vigário geral de Penafiel para, sob os seus cuidados, iniciar os estudos académicos. Em 1820, ano em que o Porto lançou a revolução liberal, o jovem estudante ingressou no Seminário existente na Quinta do Prado, junto às Fontaínhas do Porto e anos depois são-lhe conferidas Ordens Menores pelo bispo D. João de Magalhães e Avelar. Destinado às missões no Oriente, João de França parte para Lisboa, preparou-se para missionário na Congregação da Missão e em Abril de 1825 viajou para Macau, continuando a sua ordenação no colégio de S. José, recebendo, posteriormente, em Manila (Filipinas) as ordens sacras de diácono e presbítero. Celebrou a primeira missa em 1830 e ainda nesse ano partiu para a província chinesa de Fokien. Por alguns anos, o jovem padre passa pelas vicissitudes inerentes à função de missionário, com perseguições e provações várias. Foi nestas paragens que apanhou a febre tifóide e a malária, doença que o perseguiu até à sua morte.
Na altura, o governo português atravessava um período de relações conturbadas com o Vaticano, por razões que tinham a ver com a situação política em Portugal e as alterações liberais na relação com a igreja mas, também, relativamente ao direito de padroado de Portugal no Oriente. É neste contexto que D. João de França é eleito bispo de Pequim, cargo que exerce até ser obrigado, por Roma, a regressar a Macau. Terminou, com ele, o exercício do direito de padroado na diocese de Pequim. Em 1850, o ainda bispo eleito de Pequim aguarda, em Macau, que o governo português resolvesse a questão dos direitos do nosso país sobre a igreja do Oriente. Entretanto, decide prosseguir a sua tarefa missionária junto dos indígenas de Timor, missão complicada pela existência de inúmeros dialectos locais que dificultavam a comunicação. Volta a Portugal em 1853, depois de 28 anos de evangelização no oriente. Portugal perde, entretanto e definitivamente, o padroado no Oriente e D. João a esperança de regressar à sua missão.
Em Junho de 1857, D. João de França regressou ao Porto e instalou-se na vasta Quinta do Pinheiro, na zona oriental da cidade, anos depois desmembrada para construção da estação central de caminho-de-ferro, que toma o nome de estação do Pinheiro mas que todos conhecem por Campanhã. Aí viveu, num palacete que recebeu em 1863 o Seminário dos Meninos Desamparados, doado a esta instituição pelo proprietário, Luís António Gonçalves de Lima, mas a pedido do então já bispo do Porto, D. João de França, grande amigo do doador. Recorde-se que esta instituição nasceu para promover o amparo dos meninos que tinham ficado órfãos na sequência da tragédia da Ponte das Barcas, em 1809. Os portuenses em fuga dos soldados franceses que invadiram o Porto, tentaram atravessar o rio e a ponte colapsou, levando consigo milhares de vidas e deixando centenas de órfãos.
Quando vagou a diocese do Porto, por morte do bispo D. António Bernardo, foi apontado D. João de França para o suceder. O ministro da Justiça, Morais Carvalho, disse na sessão de 21 de fevereiro de 1862 da Câmara dos Pares: “aquele que se me apresentou mais digno foi o Eleito Bispo de Pekim. Eu não tinha a honra e o gosto de conhecer S. Exª e, por isso, tratei de tomar as informações mais circunstanciadas e todas elas foram excelentes”. Solicitado a anuência de D. João de França este, depois de alguns dias para tomar uma decisão acedeu a ser nomeado, o que aconteceu por decreto de 27 de fevereiro do mesmo ano. Em agosto o novo bispo do Porto entra solenemente na cidade invicta, onde se manteve até à sua morte, em 1868.
A ele se deve a abertura do seminário, no Colégio de S. Lourenço que começou a funcionar no ano lectivo de 1862/1863. A sua debilitada saúde obrigava-o a recolher-se com frequência em zonas mais rurais e é possível que tenha passado longas temporadas na casa da família, em Gondomar, bem como na quinta do Pinheiro. Contudo, em 1863 tomou assento na Câmara dos Pares, em Lisboa, função a que tinha direito por inerência do seu cargo episcopal. Aí fez algumas intervenções que lhe valeram a antipatia de muitos parlamentares, nomeadamente pela defesa acérrima dos direitos da igreja, quando se discutia o regime do provimento dos benefícios eclesiásticos. D. João de França proclamava os direitos sagrados da hierarquia da igreja na escolha dos seus membros, criticando a possibilidade dessa escolha ser feita segundo a vontade arbitrária dos que regem a sociedade civil. Ouçamo-lo: “Não posso deixar de deplorar uma série de actos, pelos quais o poder executivo se tem considerado senhor de alterar, modificar e até destruir a legislação canónica a pretexto de regular o exercício do real padroado, e de executar as prescrições do artº 75 da Carta Constitucional”.
D. João de França defendia energicamente aquilo em que acreditava e que amava, por isso usou toda a sua vontade para dotar o Seminário que tinha aberto de uma biblioteca capaz de ajudar a formação do clero. O seu trabalho nesta área iniciou, de acordo com os historiadores, a época de ouro do Seminário do Porto e a inauguração da sua amada biblioteca integrou uma cerimónia que incluiu a apresentação do retrato episcopal de D. João, à qual não pode assistir por se encontrar já muito doente.
Mas, para além do amor aos livros, o bispo do Porto fazia questão em exercer em pleno a sua vocação de eclesiástico. Assim, em 29 de Junho de 1867 encontra-se em Roma para a celebração do décimo-oitavo centenário do martírio de S. Pedro e Paulo, sendo agraciado pelo Papa com o título de Prelado Assistente ao Sólio Pontifício.
Regressado a Portugal, continuou a promover Visitas Pastorais às igrejas de diferentes comarcas. A de S. Cosme, sua terra Natal, foi também visitada por ele e apesar de lhe terem colocado um trono no altar-mor recusou-o, tendo com simplicidade falado aos fiéis e administrado o crisma. A 16 de março de 1868, depois de longo sofrimento provocado pelas doenças que tinha apanhado no Oriente, D. João de Castro e Moura morre, sem testamento. Diz o seu biógrafo, Augusto ferreira, na obra Memórias Arqueológico-históricas da Cidade do Porto que se distinguiu pela humildade e bondade, empregando os rendimentos da mitra em esmolas e em melhorar o Seminário, instituição que recebeu todos os seus livros.
D. João era grande bibliófilo e na sua vasta biblioteca existiam muitos livros chineses. Segundo Camilo de Oliveira, o autor da Monografia de Gondomar, encontrava-se na Biblioteca Municipal do Porto uma caixa de papelão, com uma folha manuscrita colada no exterior que dizia: “colecção de livros chineses oferecidos a esta Real Biblioteca Portuense pelo Ex.mo e Reve.mo Sr. D. João daFrança Castro e Moura, bispo eleito de Pekin, depois Bispo do Porto”.
Ainda em vida, D. João fez publicar, por Ernesto Chardron e Bartolomeu H. de Morais, um manuscrito que possuía do Grande Diccionario portuguez ou Thesouro da lingua portugueza, em cinco volumes, de Fr. Domingos Vieira. Também escreveu a obra “Breve Relação da Propagação da Religião Christã na China desde o Século XVI até Nossos Dias”.
Da família França Castro e Moura ainda existem muitos descendentes a viver em Gondomar. Alguns deles tiveram cargos importantes na vida pública do concelho, como se depreende de uma leitura atenta às atas das sessões camarárias onde a presença destes apelidos é uma constante. A memória das gentes recorda o amor pelos livros deste prelado e a sua humildade. A história da literatura assinala que da sua família era a primeira mulher de Camilo, a celebrada "Quininha”, nascida Joaquina Pereira de França, que morreu jovem, em Friúme, abandonada pelo escritor que, no Porto, iniciava a sua carreira literária.
Margarida Almeida
O Bispo liberal do Porto que Roma nunca reconheceu
Dá nome a uma rua e a uma travessa na freguesia de Baguim do Monte, o assento de nascimento diz que Manuel, filho de Inácio Ferreira e Maria Antónia, do lugar do Pipo, nasceu a 4 de dezembro de 1762 e que foi baptizado pelo padre Manuel Ferreira. A tradição conta que era filho de humildes lavradores e que foi a vontade e a inteligência que o fizeram percorrer o caminho da fama. É Frei Manuel de Santa Inês, o bispo que o Porto amou mas que a hierarquia da igreja conservou no limbo.
A vida de Manuel Ferreira tinha tudo para seguir o padrão de alguns meninos daqueles tempos, que se destacavam pela inteligência e eram, por isso, encaminhados para a Igreja. Mas, desde muito jovem, Manuel Ferreira quis reforçar esse destino, destacando-se logo que entrou para o mosteiro dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho (a que o povo deu o nome de Colégio dos Grilos) onde professou em 1781. Adoptou, então, o nome de Frei Manuel de Santa Inês e exerceu aí vários cargos de responsabilidade, pelo “raro aproveitamento no estudo”, garante o seu biógrafo Henrique Duarte de Sousa Reis, que foi seu secretário privado.
Em 1808, quando da primeira invasão francesa, o Bispo do Porto da altura, D. António de S. José de Castro, ordenou que o clero tomasse armas. Santa Inês assume o cargo de cabo de esquadra numa companhia de religiosos e ajuda a defender o Paço Episcopal, então quartel-general de uma cidade sitiada pelos franceses de Soult. Os acontecimentos precipitam-se, em março de 1809 o exército invasor entra na cidade e o povo foge em direcção ao sul, bem como o Bispo que deve ter assistido, da Serra do Pilar, onde se tinha escudado, à tragédia brutal da Ponte das Barcas que colapsou devido ao peso de uma multidão aterrorizada que a tentava atravessar.
Entre a derrota dos franceses, em 1810 e a revolução liberal, de 1820, Manuel de Santa Inês, que viveu largos períodos no Convento Mão Poderosa (Ermesinde), dos Agostinhos Descalços, destacou-se na hierarquia desta casa, tendo sido eleito Geral da Ordem em 1816. O seu biógrafo afirma que reformou costumes, cortou abusos e colheu muitos elogios e gratidões. Quando o Porto vivia momentos de terror, durante o período de vigência da regência de D. Miguel, o exército libertador de D. Pedro IV desembarca no Mindelo e instala-se na cidade para reorganizar a luta pela restauração do liberalismo. Ao chegar à cidade o “imortal D. Pedro, Duque de Bragança e Bourbon, terror dos Déspotas, azorrague dos Tiranos e conquistador das Liberdades e foros da Pátria”, nas palavras veementes de Henrique de Sousa Reis, “nela não encontrou a autoridade eclesiástica, o Bispo D. João de Magalhães e Avelar”. Este tinha fugido para Lamego e D. Pedro trata de o substituir, assim como a todas as autoridades que tinham abandonado as suas responsabilidades. Depois de “bem informado” nomeia Frei Manuel de Santa Inês Vigário Capitular, que fica ainda com o governo espiritual do arcebispado de Braga, através de um decreto assinado por Mouzinho da Silveira. A nomeação não foi pacífica e o cabido do Porto não vê com bons modos a decisão de D. Pedro, aliás confirmada em 15 de agosto de 1833, estava já o seu governo em Lisboa, estabelecendo que Santa Inês, para além de Vigário capitular e governador temporal era bispo eleito do Porto.
Alguns historiadores interrogam-se quanto às razões que levaram D. Pedro a chamar este frade para senhor espiritual da cidade. A explicação, garante Augusto Ferreira, nas Memórias Arqueológico-Históricas da Cidade do Porto, está no facto de Santa Inês se ter manifestado abertamente liberal logo após a revolução de 1820 mas, sobretudo, ter sido bastante ativo na defesa dos implicados no movimento de 16 de Maio de 1828, que pretendia derrubar a regência de D. Miguel. Recorde-se que o Porto assistiu, horrorizado, à forma como os absolutistas esmagaram os implicados neste movimento, tendo condenado à forca vários conjurados, numa cerimónia de castigo exemplar, na Praça Nova (praça da Liberdade).
A eleição de Santa Inês nunca foi confirmada pelo vaticano, aliás, Portugal tinha iniciado, com a revolução liberal, um cisma religioso que se estendeu até meados do século XIX e para boa parte do clero português o Bispo eleito por D. Pedro era um usurpador. Isso não o impediu de governar a sua igreja da melhor forma: enriqueceu a Sé do Porto com preciosas alfaias, conseguiu que o governo concedesse a Igreja de S. Lourenço para funcionamento do Seminário Diocesano e negociou com a Câmara do Porto a cedência de terrenos, da quinta do Prado, que pertencia ao Bispo, para criação do primeiro cemitério municipal, o do Prado do Repouso, que ele próprio benzeu. Aliás, dizem as velhas crónicas que foi na sequência da cerimónia, feita a 1 de dezembro de 1839, dia de chuva torrencial, que Santa Inês adoeceu, acabando por morrer sem testamento a 24 de janeiro de 1840.
A cidade vestiu-se de luto pelo bispo que se tinha associado à matriz liberal dos portuenses e, por isso, juntou-se uma multidão no amplo recinto da Sé do Porto. Estranharam todos que o corpo do prelado não estivesse na capela-mor e não tivesse a assistência do cabido, mas quando os religiosos tentaram levar o féretro para os claustros, num lugar onde noutros tempos se enterravam os pobres, é que o povo se levantou num tumulto. A revolta foi tão grande que a 6 de fevereiro o ministério da Justiça lança uma portaria para que se investigassem os desacatos ocorridos.
Apesar da relutância do Cabido em prestar as homenagens devidas a um bispo, os portuenses exigiram que o cadáver fosse sepultado na Real Capela da Lapa, o que veio a acontecer, com grande pompa, sendo o seu jazigo um dos primeiros que o cemitério privativo desta ordem veio a possuir, mandado erigir pelos habitantes da cidade. O soberbo mausoléu tem inscrito o respeito dos portuenses à memória de D. Manuel e, num dos lados, é possível ler a seguinte dedicatória, demonstrativa do respeito que o povo lhe votava: “A mitra não cingiu a sua fronte, mas falte a mitra embora, dessa falta nada seu grande nome se ressente. Adornado, como ele, de virtudes, outro não existiu, que assim cumprisse do sacro ministério as funções todas”.
Se da vida pública ficaram registos, do seu percurso privado pouco sabemos. Teve um irmão, João, que também foi frade e teve, certamente, muitos outros irmãos que a história não registou. Baguim do Monte prestou-lhe homenagem, dando o seu nome a duas artérias e mandando fazer um busto que colocou no largo de S. Brás, junto á igreja paroquial.
Do século XVIII resta, em Baguim, o topónimo Pipo, que dá nome a uma rua e restam vagos relatos de uma terra fértil, de muitos pequenos lavradores e alguns grandes proprietários. Um deles, terá sido Domingos Coutinho de Amorim que no ano em que nasceu o nosso D. Manuel, era dono de uma escrava chamada Antónia que teve, em 27 de Abril de 1762 um filho, Custódio, também escravo. Os arquivos paroquiais desvendam-nos, por vezes, realidades que a história oficial escondeu. Porque da vida e da morte dos escravos, no Portugal continental, pouco ou nada sabemos. Fica aqui o registo, deste Custódio, conterrâneo de um bispo revolucionário e, também ele, filho de Gondomar.
Margarida Almeida
Entre a santidade e a política, um abade gondomarense
Em Gondomar nasceram dois bispos e temos tido muitos padres que marcaram as gentes das paróquias onde exerceram o seu sacerdócio. De Gondomar é, também, um abade que estudou no Porto e conquistou fama de Santo na Foz do Douro, local onde ainda hoje é venerado. O seu nome é José dos Santos Ferreira Moura, que ficou conhecido como abade Moura, nascido no lugar de Ervedosa, em S. Pedro da Cova. Um homem bom que dá nome a uma rua da terra onde nasceu e que deixou memórias de santidade.
No dia 29 de abril de 1839, na casa dos pais, António dos Santos natural de Rio Tinto e de Teresa Isabel nascida e criada em Ervedosa, nasceu José, o terceiro filho deste casal de lavradores. Com sete anos de idade ficou órfão de pai, um marco triste na infância do pequeno José que passava os seus dias a ajudar nas tarefas do campo. A mãe, quatro anos passados, volta a casar, com o cunhado, padrinho dos filhos, e ambos começam a pensar no futuro das crianças. Como era comum naquele tempo, a emigração para o Brasil era o sonho de muitas famílias que procuravam a árvore das patacas no outro lado do Atlântico. O pequeno José é o escolhido para ir ter com um tio, já instalado no Rio de Janeiro. Foi, mas rapidamente percebe que aquele não era o seu destino. Meses depois regressa a Portugal e é encaminhado para o sacerdócio. Primeiro estudou no Colégio da Formiga (em Ermesinde) e em dezembro de 1856 recebe as quatro ordens menores, sob o patrocínio do bispo do Porto, D. António Bernardo da Fonseca Moniz. Entrou, de seguida, no Seminário do Porto, dedicando-se ao estudo e conquistando fama de aluno exemplar, em termos académicos e humanos.
A mãe assistia, orgulhosa, à consolidação de uma vocação que enobrecia a família e José é dotado com os campos da Cavada de Cima e outras propriedades. Estava tudo preparado para a celebração, em setembro de 1862, da ordenação sacerdotal do jovem padre. É um outro gondomarense, o nosso conhecido D. João de Castro e Moura, então bispo do Porto, que nomeia José Ferreira Moura como capelão das Dominicanas de Corpus Christi (convento feminino em Vila Nova de Gaia, na margem do Douro). Apesar da sua entrega à vida religiosa, o jovem padre não prescinde da envolvência na vida política do país, que tinha atravessado uma guerra civil longa e fraturante, iniciando um ciclo de paz e desenvolvimento do país, com a Regeneração. É precisamente no partido Regenerador que o padre Moura encontra o seu lugar, tendo sido eleito, em 1871, procurador à Junta Geral do Distrito do Porto pelo concelho de Valongo e, obviamente, pelo seu concelho natal, Gondomar.
Em 1873, por morte do abade de São João da Foz do Douro, o capelão do convento das monjas dominicanas é nomeado para presidir à pequena paróquia. A Foz do Douro era, naquele tempo, um lugarejo de pescadores, com forte pendor religioso, que ganhava alguma animação na época balnear, quando os carroções despejavam nas praias os banhistas citadinos. Foi nesta freguesia que o padre Moura conquistou fama de grande orador, mas também de homem empenhado na promoção da terra de que era líder espiritual. Mas se a ação e as obras terrenas deste pároco marcaram a freguesia de S. João da Foz, como se percebe pela leitura dos jornais da época, foi o seu espírito caritativo e o exercício em pleno da sua vocação, que ficou gravado no coração da população. Protegia os pobres e os doentes e, dizem os testemunhos, todos os seus recursos eram destinados à caridade.
Eram famosas as prédicas do padre Moura e a igreja de S. João da Foz enchia de gente, proveniente de diversas lugares do Porto, para assistir à missa e ouvir as palavras inspiradas do bom abade. Inspirada mas polémica foi a actividade política em que se envolveu o padre José de Moura. Regenerador convicto, o pároco entrou em conflito com elementos do partido Progressistas, nomeadamente com o seu líder local, António Carneiro dos Santos - proprietário do Chalet Suiço, ainda existente no Passeio Alegre, encimado pela figura de um carneiro – uma rivalidade que se estendia a todas as áreas. Em 1886 o padre Moura quis organizar, pela primeira vez na Foz, a procissão do Sagrado Coração de Jesus, os progressistas conseguiram assumir o controlo da Confraria do Santíssimo Sacramento, através de uma comissão administrativa que fechou à chave os objetos de culto e mesmo os bancos do altar, procurando impedir a realização da procissão. Mas o padre era persistente e a festividade acabou por acontecer, com um estrondoso sucesso, segundo os jornais da época.
Com uma cultura vasta e um sentido de responsabilidade acentuado, o abade Moura fundou a Associação Protetora de Socorros Mútuos da Foz do Douro em 1877 e a Banda Marcial da Foz em 1883. Os opositores políticos fundaram, em 1879, a Associação de Beneficência de S. João da Foz, para fazerem frente à popularidade cada vez mais acentuada do padre, contudo, anos depois as duas coletividades fundiram-se e nasceu a Associação de Socorros Mútuos da Foz, que sobreviveu até 1977 e foi, ao longo de muitas décadas, uma instituição de referência na localidade. A 22 de Maio de 1887 o padre Moura fez o seu último sermão, na Capela de Nossa Senhora da Ajuda, em Lordelo do Ouro. Estava um dia de temporal, o abade apanhou uma constipação que degenerou em pneumonia e após cerca de 15 dias de sofrimento sucumbiu. Morreu pobre e foi chorado pelos seus paroquianos mais humildes e desfavorecidos.
Não havia um lugar digno no cemitério para o sepultar e, porque era muito querido, levantaram-se vontades e projectos para lhe construírem um mausoléu. O seu inimigo político, na altura presidente da Junta, António Carneiro dos Santos, ofereceu o jazigo de família para que o corpo do abade ali repousasse até ser encontrada uma última morada digna. Paralelamente, levou a Junta a abrir uma subscrição pública para a construção de um jazigo. Mas os amigos e familiares do padre, nomeadamente dois dos seus irmãos, já depois de a subscrição estar a decorrer (com contribuições do regedor e membros da Junta), informaram que não aceitavam a homenagem, criando uma nova comissão para angariação de fundos para o jazigo. Com o dinheiro já recebido, a Junta mandou celebrar uma missa e distribuiu pelos pobres o remanescente. Mas não acabou aqui o conflito. As disputas políticas adiaram a construção do jazigo e foi mesmo necessário que um tribunal intimasse a Junta a despachar o pedido de cedência do terreno para construção do mausoléu, feito pelos irmãos do abade. Antes disso, já João Arroyo, deputado ao parlamento, tinha denunciado em Lisboa as irregularidades da Junta, que demorava a deferir o processo.
O jornal “O Globo” de 10 de março de 1889 historiava, numa notícia, “a celebre questão do mausoléu do fallecido abbade Moura, que tanto pasto deu à intriga política. A junta de parochia, esquecendo-se simplesmente do parocho da freguezia, quiz expontaneamente erigir-lhe, por meio de uma subscripção publica, um monumento onde repousassem os restos mortaes do reverendo Moura, que tão cedo se finou, devido, talvez, mais á incarniçada lucta de uma política cheia de ódios e de rancores, do que ao trabalho de converter a heresia”. Finalmente, depois de arrecadados 437 mil e 570 réis, em 26 de dezembro de 1889 foi efectuada a trasladação do cadáver, ainda a obra não estava completamente terminada. Muitos anos depois, corria o ano de 1925, nova comissão é constituída para angariar verbas para erigir duas capelas, uma das quais destinada, por vontade popular, a receber o corpo do abade Moura. É que a coluna que encimava o mausoléu partiu, na sequência de um temporal, quebrando o jazigo e deixando visível o corpo incorrupto do abade. Rapidamente alastrou a fama de santo e brotou do povo a ideia da construção de uma capela onde o bom abade da Foz pudesse ser visitado pelos crentes.
Há quem diga que foi mesmo o espírito do abade que, descontente com as intrigas que a construção do mausoléu tinha gerado, fez abanar a coluna até partir o jazigo. Certo, certo é que nenhuma das fações políticas ganhou, já que a última morada do padre Moura está vazia e o seu corpo repousa, na capela, local de romaria para aqueles que acreditam na sua santidade.
Em Gondomar, mais precisamente na freguesia onde nasceu, há uma rua com o nome deste padre bom, que nos orgulha e, apesar das gentes de S. João da Foz assumirem como seu o nosso abade, nenhuma artéria daquela freguesia do Porto recorda este pároco, que, milagrosamente, se dividiu entre a política e a bondade.
Margarida Almeida
Um padre revolucionário, professor, jornalista e erudito
A religião não casa bem com revoluções nem com novas ideias e, talvez por isso, Camilo de Oliveira tenha renunciado ao sacerdócio para melhor continuar a espalhar os ideais republicanos, a ensinar e a aprender. Autor dos Apontamentos Monográficos de Gondomar, uma obra exaustiva que, em quatro volumes, traça a história do concelho, Camilo Martins de Oliveira é uma figura de múltiplas facetas, que merece ser evocado e mais conhecido pelas suas gentes.
Nascido em março de 1874, na casa da Passagem, em S. Cosme, Camilo de Oliveira foi um dos 14 filhos de José Martins de Oliveira e Teresa Pereira das Neves. Depois de terminar o ensino primário quis continuar a estudar mas, confronta-se com a imposição paterna que o obrigava a escolher entre a profissão de lavrador ou o sacerdócio. Ainda tentou resistir à falta de vocação e vai ajudando a família nas tarefas do campo, mas o amor pelo estudo era mais forte e foi no Seminário dos Carvalhos que fez todo o seu percurso académico.
Feito padre, Camilo de Oliveira exerceu o sacerdócio por alguns anos, mas na primeira década do século XX já se manifestava publicamente contra a monarquia, defendendo ideais republicanos em vários jornais e participando em actividades políticas. Pelo meio escreveu algumas obras onde manifesta, inequivocamente, o seu pensamento, como “O Padre e a República” ou “Uma Cilada Desfeita”.
Verdadeiramente activista, o jovem padre, após a implantação de República, redobrou a sua actividade nos jornais, assumindo em pleno defesa da Lei da Separação do Estado das Igreja. Recorde-se que é Afonso Costa – não por acaso diabolizado pelos meios católicos mais conservadores – que, com a lei de 20 de Abril de 1911, põe fim ao catolicismo como religião do Estado. Com ela afirmava-se a liberdade de consciência, permitem-se as confissões minoritárias, impedia-se o estado de subsidiar a igreja, terminavam-se com as côngruas paroquiais e a gestão da vida religiosa era confiada a associações cultuais. Camilo de Oliveira estava, em 1914, na cultual de S. Mamede Infesta e denunciou a desobediência de muitos padres à nova legislação, nomeadamente no Jornal “O Amigo do Povo” – Folha Republicana Anticlerical, numa coluna intitulada “A Grilheta religiosa”. Num desses artigos referiu-se à existência de padres que diziam missa nas suas próprias casas, a que iam assistir muitas mulheres que levavam, escondidas, as “capas de ir à missa”.
É neste contexto de vivências revolucionárias que Camilo de Oliveira quebra a sua ligação à igreja, torna-se num anticlerical assumido e escolhe a profissão de professor para obter independência financeira. Afinal, não devia ser fácil assinar artigos incendiários com o nome Padre Camilo Oliveira e apelar à paz e à concórdia enquanto protagonizava cenas de pancadaria, como as que decorreram no desparecido Éden-Teatro, em 1919, onde foi, juntamente com outros republicanos do Concelho, barbaramente agredido, na sequência da contra-revolução liderada por Paiva Couceiro, que ficou conhecida como “Monarquia do Norte”.
Lecionou em várias escolas do Porto, incluindo o Liceu D. Carlos e a Escola Oliveira Martins, mas nunca esqueceu a sua terra, como o comprova a obra que nos legou sobre o Concelho, mas também as múltiplas colaborações em jornais locais. Aliás é num da nossa terra, publicado em 1912, chamado Aurora de Gondomar que, em artigo de fundo, traça um retrato pouco animador do concelho. Ouçamo-lo: “Concelho desgraçado, sem homens de prestígio que o valorizem, sem elementos de civilização que o recomendem, sem espírito de solidariedade que o prestigie, o nosso concelho vem, desde Adão, sendo o escárnio dos poderes centrais, teatro de comédias políticas onde se exibem cenas ora de interesses particulares ora de vaidades tolas.”. Acutilante, Camilo de Oliveira continua a enumerar as razões para o subdesenvolvimento aviltante: “Podia ser grande esta terra se não enfermasse do espírito de desunião e da febre do caciquismo. O espírito de desunião é consequência de elementos preponderantes que jamais cedem suas tendências às de interesse geral; a febre de caciquismo, herança da monarquia, é o alarde vaidoso de quem quer ser mais do que os outros. Eu tenho sido vítima dos maníacos da superioridade. Por várias vezes tenho ajudado pela pena a organizar-se um jornal defensor dos interesses concelhios”.
E lá estava ele, o jornal Aurora de Gondomar, dirigido pelo Dr. Belleza de Andrade, editado por Lino Figueiroa e secretariado por Serafim Rosas, que se assumia como órgão oficial da Comissão Política Republicana de Gondomar. A terminar o seu editorial, Camilo de Oliveira garantia aos gondomarenses: “Podeis contar comigo, por amor à terra onde nasci, terra que eu gostaria de ver progredir, terra que tem jus a nivelar-se com as melhores do país, pela riqueza do solo, pela excelência da indústria e pela pequena distância que a separa do Porto”.
Mas escreveu também noutros órgãos de comunicação, nomeadamente no jornal “A Nossa Terra”, também de Gondomar, nos jornais do Porto “A Verdade” e “ O Tripeiro”, “O Norte”, “O Amigo do Povo” e “A República Portuguesa”, na revista “Ourivesaria Portuguesa”, no gaiense “Cinco de Outubro” e no jornal “O Combate” de Rio Tinto. Uma actividade intensa, como se pode comprovar pelos títulos enumerados e que, provavelmente, não foram os únicos onde a sua pena serviu a ideologia republicana.
Apesar de completamente envolvido no furacão que foi a vida política da I República, Camilo de Oliveira organizou a sua vida, casou com Emília Ferreira de Oliveira, de quem teve cinco filhos. Paralelamente, continuava a dedicar-se ao ensino, leccionando português, francês, história e geografia e foi autor de uma obra pedagógica de referência, “Noções de Gramática Portuguesa”, que teve cinco edições, entre 1928 e 1935.
Mas não se ficava por aqui a actividade profissional deste gondomarense, às horas que dedicava ao ensino, acumulou mais seis horas de trabalho diário na Biblioteca Municipal do Porto, onde foi funcionário durante 18 anos. Foi aí, calculamos, que recolheu e organizou muito do material que constitui a Monografia de Gondomar, feita a expensas suas, ao longo de 12 anos.
Quando se reformou, por limite de idade, na escola Oliveira Martins foi homenageado por todo o corpo docente e funcionários, e na biblioteca foi-lhe feita uma despedida emocionada, cerimónias que tiveram eco na imprensa diária. O jornal “O Comércio do Porto” transcreveu os diversos discursos de despedida e neles destacam-se as qualidades deste homem, quer como professor “porque foste amigo dos teus alunos, procurando sempre, com digno esforço, incutir-lhes nos espíritos em botão a semente do saber”; quer como ser humano íntegro, “podes sair daqui com a cabeça levantada, porque não usaste jamais de subterfúgios, nem de fraudes, nem de subornos, no desempenho das tuas pesadas obrigações. Porque foste um mestre competente e um juiz incorrupto”.
Camilo de Oliveira morreu, em 1946, com 72 anos. Deixava uma família e um passado feito de batalhas e concretizações. Um dos seus filhos, Camilo Afonso Máximo Cimourdain Ferreira de Oliveira, nascido em 1912, fez uma carreira académica brilhante, tendo sido considerado o decano dos professores de Contabilidade. Exerceu funções docentes até aos 88 anos, na faculdade de Economia da Universidade do Porto, foi director do Departamento de Gestão de Empresas e Vice-reitor da Universidade Portucalense e é considerado um dos principais responsáveis pela organização da Contabilidade e Fiscalidade, como áreas de especialização, sobre as quais escreveu mais de 20 obras. Apesar de ter nascido no Porto, o filho mais velho de Camilo de Oliveira desempenhou funções, como consultor económico, naquela que foi uma dais maiores empresas de Rio Tinto, a Mondex. Cimourdain de Oliveira foi convidado para o cargo pelo fundador da “Fábrica de Malhas Mondego” (Mondex), Fernando Miguel Rodrigues Júnior. Morreu em 2008, com 96 anos de idade, inscrevendo o nome Cimourdain – único na onomástica portuguesa - na história académica nacional, o mesmo nome que Victor Hugo deu a uma personagem da sua obra “Quatrevingt-treize”, que, curiosamente ou talvez não, era um ex-padre e professor que aderiu à causa revolucionária da nova França republicana. Cimoudain Oliveira imitou, pela capacidade de trabalho e dedicação ao ensino, o seu pai, uma figura de que Gondomar se pode e deve orgulhar.
Margarida Almeida